Sexta-feira, Outubro 16, 2009

Happy Diwali

Hoje é celebrado o Diwali, grande festival hindu também conhecido como o "festival das luzes". Resolvi falar aqui sobre este importante acontecimento religioso porque nós, ocidentais, quase sempre marcados por nosso umbigocentrismo, deixamos escapar aos nossos olhos e corações verdadeiras jóias que ocorrem do outro lado do mundo. E o significado do Diwali merece ser celebrado pelo globo inteiro.

Diwali é uma palavra em sânscrito que significa algo como uma "fileira de lâmpadas", um conjunto de luzes. A luz das diyas (pavios de cordinhas de algodão mergulhados em potinhos de barro, cheios de óleo) significam a vitória do bem contra o mal dentro de cada pessoa.

No hinduísmo, em muitas partes da Índia e do Nepal, o Diwali simboliza o retorno de Rama ao lar, após 14 anos de exílio na floresta, e sua vitória sobre Ravana. A história conta que o povo de Ayodhya, capital do reino de Rama, o recepcionou com pavios de algodão iluminados (avali) em lâmpadas (dipa), daí o nome, também conhecido como dipavali. No sul da Índia, o festival marca a vitória de Krishna sobre Narakasura. No jainismo, o Diwali marca a chegada de Mahavira ao nirvana, em 15 de outubro do ano de 527 a.C. O festival é ainda comemorado pelos sikhs, e representa a iluminação da cidade de Amritsar, como comemoração pelo retorno do Guru Har Gobind Ji (1595-1644), o sexto Guru dos sikhs, que estava aprisionado junto a outros 52 reis hindus pelo imperador Jahangir. Depois de libertar os outros prisioneiros, ele foi até o Templo Dourado (Harmandir Sahib), onde foi recebido pelo povo que comemorava com velas acesas. Por causa disso, os sikhs comumente se referem ao Diwali como Bandi Chhorh Divas, ou "o dia da libertação dos cativos". O festival é comemorado também pelos budistas do Nepal.

Pode-se dizer que o significado espiritual mais importante do Diwali seja "a consciência da luz interior". Em tempos sombrios como os nossos, considero imporante que ouçamos esse chamado, sempre presente, mas tão negligenciado, do ponto de luz que fala dentro de nós. Penso que qualquer um pode ouvi-lo, desde que silencie o barulho dos outros sentimentos, dos instintos mais grosseiros que, comumente, querem reger nossa carruagem. Alimentar essa pequena luz é uma tarefa diária, pedregosa, mas benfazeja.

Desejo do fundo do coração que a iluminação interior, a voz da consciência, sempre boa, fale alto a cada um de todos os que visitam esta minha casa. E que, como para os sikhs, esse sentimento propicie nossa libertação dos tantos cativeiros a que nos prendemos. A cada um de vocês, ofereço uma velinha, com todo o meu afeto.

Salaam
Layla

(As informações desse texto foram traduzidas livremente da página http://en.wikipedia.org/wiki/Diwali.
Imagem: http://kalisipudi.wordpress.com/2008/10/28/where-are-those-lights/ )

Domingo, Outubro 11, 2009

Tenho fases como a lua

Tenho fases, como a lua.
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vêm e que vão
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
(Cecília Meireles)
É que Cecília sabe cantar a sazonalidade de cada ser humano muito melhor que eu...
Salaam
Layla
Imagem: Selene, greek goddess of the moon. Arthemis-Diana in greek mythology. Disponível em: http://www.myastrologybook.com/Artemis-Diana-Selene-Phoebe-Luna-Hecate.htm

Terça-feira, Outubro 06, 2009

Da simplificação grosseira de um coração que pesa quatrocentos quilos

Quando me perguntam o que eu desejo, de fato, da vida, receio que a resposta não seja binária, direta, dedutível. Não é óbvia. Triste pensar que tantas pessoas consigam ver uma mulher como um personagem de novela, altamente repetível, concluível. Algo terminado.

Mais triste ainda é pensar que alguém possa dizer: "eis com o que você deve se contentar". Eu pareço, de fato, ser rasa e epidérmica? Não há, porventura, atrás de minhas pupilas, um buraco negro, que não se pode supor?

Eu chego a rir de tais simplificações. É como dar a uma mulher uma panela de presente no dia das mães. "Eis aí o que é teu, não se dá por satisfeita?". Como se o meu destino fosse ser essa mártir involuntária, pronta a amamentar a todos em suas gigantes tetas, pronta a ser a eterna mãe, a doadora infinita, a que tudo aceita, a que tudo suporta... Em nome do quê?

Tenho a vos dizer que não sou isso. Não quero isso para mim. Não quero que deduzam o que eu devo ou não devo sentir. Não quero que me censurem em minhas dores mais viscerais, ou que reduzam o cúmulo do meu sofrimento à banalidade óbvia que se vê nos folhetins. Não quero que encarem minhas úlceras como dramas descabidos. Não quero que subestimem minha dor. Ou minha raiva.

A todos vocês, que me simplificam, me restringem, me diminuem as proporções, dedico meu infinito e mais brando olhar de pena.

Salaam
Layla

Sábado, Agosto 29, 2009

Helwa yaa baladi

Há dias em que o tempo se fecha e tudo é fatigante, quando trabalhei demais, estudei demais e pensei demais. Há dias em que me sinto um farrapo humano e tenho pensamentos sabotadores que me atingem, dizendo que não sou especial, e nunca serei. Há dias em que me lembro de feridas, desapontamentos, palavras amargas, dores lancinantes, perdas, quedas. Nesses dias, não raro, subitamente, tocam cinco, seis notas de um violino denso e misterioso, aquela atmosfera que só os músicos árabes sabem reproduzir. Uma velha canção árabe enche de cores a sala, e enche de cores os olhos, e faz meu coração crescer, crescer, e quase sair de mim.
Nesses dias, Deus se veste de música, e vem me falar ao ouvido. Da forma como fala sempre, mas que tanta dificuldade eu tenho em compreender.
Quando escuto uma antiga voz cantando em árabe, eu me esqueço de tudo, me lembro apenas de quem sou realmente. Não importa em que lugar esteja, eu me lembro que minha terra é onde meu coração repousa.
Dentro do meu peito cabe uma Palestina inteira, uma Bagdá inteira, toda uma Beirute. Cabe um Vale do Bekar, o coração do Líbano. Cabe uma Capadócia, terra de otomanos, com seu chão de lua.
É muito, muito bom mesmo saber quem eu sou, e sentir felicidade por sê-lo...
Salaam
Layla
(Imagem: minha querida Camila me fotografou, em 2003).

Sexta-feira, Agosto 21, 2009

Bilhetes, livros e quindins

Há um certo tempo, ando numa fase de recolhimento que algumas pessoas não compreendem. Na verdade, sempre fui uma pessoa introvertida e, por isso mesmo, já fui considerada, em muitas situações, antipática ou antissocial. Normalmente, não gosto de grandes festas, não gosto de boates, não gosto de música alta e não gosto de passar muito tempo longe de minha casa. Isso pode parecer uma imensa chatice, mas muitas pessoas são assim e creio que devam ser respeitadas em suas idiossincrasias. Quando visito as pessoas que gosto, o faço com o coração muito aberto e a distância não arrefece para mim, em um milímetro, o afeto que sinto pelos que me são caros. Isso não significa que eu seja uma ilha, mas que eu seja dada a manifestações de afeto diferentes daquelas que o mundo hoje nos exige, diferentes de uma sociabilidade forçada, convencionada, que obriga que gostemos todos das mesmas coisas, que pensemos todos da mesma forma.
Há um tempo atrás, recebi um e-mail de minha querida Turmalina (http://cartadetarot.blogspot.com/), com um lindo texto da Martha Medeiros. Essas palavras foram escritas com uma incontível sensibilidade, e me tocaram deveras. Transcrevo-as como um presente para aqueles que costumam passar por aqui... Aliás, por eu nunca tê-los visto ou apertado suas mãos, isto não significa que não sejam, para mim, pessoas importantes.
Estava lendo o novo livro do Paulo Hecker Filho, Fidelidades, onde numa de suas prosas poéticas ele conta que, antigamente, deixava bilhetes, livros e quindins na portaria do prédio de Mário Quintana: "Para estar ao lado sem pesar com a presença".
Há outras histórias e poemas interessantes no livro, mas me detive nessa frase porque não pesar aos outros com nossa presença é um raro estalo de sensibilidade. Para a maioria das pessoas, isso que chamo de um raro estalo de sensibildade tem outro nome: frescura.
Afinal, todo mundo gosta de carinho, todo mundo quer ser visitado, ninguém pesa com sua presença num mundo já tão individualista e solitário. Ah, pesa. Até mesmo uma relação íntima exige certos cuidados. Eu bato na porta antes de entrar no quarto das minhas filhas e na de meu próprio quarto, se sei que está ocupado. Eu pergunto para minha mãe se ela está livre antes de prosseguir com uma conversa por telefone.
Eu não faço visitas inesperadas a ninguém, a não ser em caso de urgência, mas até minhas urgências tive a sorte de que fossem delicadas. Pessoas não ficam sentadas em seus sofás aguardando a chegada do Messias, que dirá a do vizinho. Pessoas estão jantando. Pessoas estão preocupadas. Pessoas estão com o seu blusão preferido, aquele meio sujo e rasgado, que elas só usam quando ninguém está vendo. Pessoas estão chorando. Pessoas estão assistindo a seu programa de tevê favorito. Pessoas estão se amando. Avise que está a caminho. Frescura, jura? Então tá, frescura, que seja.
Adoro e-mails justamente porque são sempre bem-vindos, e posso retribui-los, sabendo que nada interromperei do lado de lá. Sem falar que encurtam o caminho para a intimidade. Dizemos pelo computador coisas que, face a face, seriam mais trabalhosas. Por não ser ao vivo, perde o caráter afetivo? Nem se discute que o encontro é sagrado. Mas é possível estar ao lado de quem a gente gosta por outros meios. Quando leio um livro indicado por uma amiga, fico mais próxima dela.
Quando mando flores, vou junto com o cartão. Já visitei um pequeno lugarejo só para sentir o impacto que uma pessoa querida havia sentido, anos antes. Também é estar junto. Sendo assim, bilhetes, e-mails, livros e quindins na portaria não é distância: é só um outro tipo de abraço.
Martha Medeiros
Salaam
Layla


Sábado, Agosto 01, 2009

Pequeno momento de exorcismo íntimo

Gabriel García Márquez - para mim, o maior escritor do mundo - descreve, em "Cem anos de solidão", o melhor e mais incrível livro que já li em vida, uma passagem muitíssimo interessante. Úrsula Iguarán, esposa do indescritível personagem José Arcadio Buendía, era atormentada constantemente pelo fantasma de Prudencio Aguilar:
Numa noite em que não conseguia dormir, Úrsula saiu para beber água no quintal e viu Prudencio Aguilar junto à tina. Estava lívido, com uma expressão muito triste, tentando tapar com uma atadura de esparto o buraco da garganta. Não lhe produziu medo, mas pena. Voltou ao quarto para contar ao esposo o que tinha visto, mas ele não ligou. "Os mortos não saem", disse. "O que acontece é que não aguentamos com o peso da consciência". Duas noites depois, Úrsula tornou a ver Prudencio Aguilar no banheiro, lavando com a atadura de esparto o sangue coagulado do pescoço. Outra noite, viu-o passeando na chuva. José Arcadio Buendía, irritado com as alucinações da mulher, foi para o quintal armado com a lança. Ali estava o morto com sua expressão triste.
- Vá pro caralho! - gritou-lhe José Arcadio Buendía. Cada vez que voltar, eu o mato de novo.
A leitura do método de exorcismo de José Arcadio Buendía me parece deveras atraente. Há muito que tenho sentido a necessidade de me livrar de fantasmas inoportunos que, muitas vezes, não estão, de fato, mortos. Estes dias, me deparei com pessoas fantasmagóricas, cuja presença em minha vida só contribuiu para que desacreditassem em mim, para que me subestimassem e para que negassem a validade de minhas inteções... A todos vocês, fantasmas queridos, que tanto me atormetaram e que tantas dores de estômago me causaram, meu humilde, singelo, e profundamente sentido desabafo:
Vão pro caralho.
Salaam
Layla
(O trecho em itálico é uma citação literal de Gabriel García Márquez, em Cem Anos de Solidão. Tradução de Eliane Zagury. Rio de Janeiro: Editora o Globo / São Paulo: Editora Folha de São Paulo, 2003).

Terça-feira, Julho 14, 2009

A única maneira que concebo de levar minha vida com dignidade

é levar em conta os sentimentos dos outros. Ter os outros em conta. Em conta. Isto significa que alguém “significa”, significa que os outros possuem um fim em si mesmos, e não existem como meio para nada. Não existem como meio para mim.

Cansei de olhar para os inúmeros abrolhos que transcorri. Tenho sangue de mulher. Ando com os pés no chão, na terra. A terra da qual o homem foi feito. Mas eu não fui feita de terra, me disseram, eu já sabia, que sou osso de costela. Osso de costela... Mulher-esqueleto. Sou feita de osso, por isso, quando venta, não sou levada para longe. Não me desmancho. Tenho estrutura.

Achava em cada ilha onde chegava a imagem do paraíso. Então, queimava os navios, para não ter meios de voltar. O tempo passava, áspero, com sua adaga a ferir os sonhos. Já não havia barcos. Todas as vezes, voltei a nado. Exasperada. Nem sei como regressei à terra de onde eu mesma havia partido. Regressava para me encontrar comigo mesma, e sempre num estranho reencontro. Quando eu chegava, o outro-eu, a me receber, questionava: que queres aqui?

A única maneira que concebo, de viver minha vida com dignidade, é levar em conta os sentimentos dos outros. E os meus. Senão morro.

Continuo a queimar navios, porque é assim que deve ser. Cada navio em chamas evoca a imagem da minha própria responsabilidade. O fogo crepita, e me diz: “você é quem sofrerá as consequências”. Eu respondo: “eu sei”.

Sempre me tranquilizei pensando que, quando encontrar a ilha certa, não precisarei mais voltar a nado.

Hoje queimei duas caravelas.

Não sei para onde o vento sopra, mas ele não me levará, pois sou mulher-esqueleto. E, com meus ossos, aprendi a dançar. Andar. Não é mais necessário ser mulher-serpente, a marcar a terra com o próprio dorso. Quem tem um esqueleto decente pode, finalmente, caminhar em paz.

Salaam
Layla

Eu voltei

Voltei.

Devagar.

Salaam
Layla

Sábado, Abril 04, 2009

Sobre o rio

A tua saudade corta como aço de navaia
O coração fica aflito, bate uma, a outra faia
E os óio se enche d´água
Que até a vista de atrapaia, ai ai.

"Cuitelinho", composição de Paulo Vanzolini / Antônio Xandó, sobre folclore popular. Na voz de Nara Leão é bem bonito.

Em algumas regiões do Brasil, Cuitelinho é o nome que se dá ao beija-flor.

Salaam
Layla

Imagem: Foto tirada por mim, do Rio Aquidauana (Aquidauana/MS)

Domingo, Março 08, 2009

8 de Março

Maria, Maria
É um dom, uma certa magia,
Uma força que nos alerta

Uma mulher que merece viver e amar
Como outra qualquer do planeta

Maria, Maria
É o som, é a cor, é o suor
É a dose mais forte e lenta

De uma gente que ri quando deve chorar
E não vive, apenas agüenta

Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre

Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria
Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida
(M. Nascimento / F. Brant)
Salaam
Layla
Imagens
Na ordem em que aparecem:
1 - Marla Mossman. Mulher hindu com filha em Lakir Road, India, 1996. Disponível em: http://www.takegreatpictures.com/Articles/Details/
The_Peace_Caravan_Project_in_Northern_Indiaby_Marla_Mossman.fci
2 - Mulheres judias no muro das lamentações.
3 - Ciganas romenas. Disponível em:
4 - Mulher andina com o filho.
5 - Mãe africana.
6 - Índia amamentando um filhote de animal, com o filho no colo. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/galeria/images/espanha_india.jpg
7 - Mãe e filho no Japão antigo. Disponível em:
antique-japanese-photo-kimono-woman-mother-child/
8 - Mãe se despede dos filhos em Beirute.
9 - Sebastião Salgado. Disponível em: www.terra.com.br/sebastiaosalgado/

Terça-feira, Março 03, 2009

Balinhas

Poucas coisas me causam tanto desconforto quanto o calor. Hoje pela manhã eu tinha uma série de afazeres. Pus uma roupa leve, criei coragem e fui me aventurar nos 33 graus que me aguardavam lá fora. Perto da hora do almoço, terminei tudo o que tinha que fazer, e resolvi passar no supermercado perto de minha casa para uma compra rápida. No caminho de volta, sob um semáforo perto do local onde moro, duas velhinhas pequeninas, negras, vendiam balinhas aos motoristas quando o sinal avermelhava.

Perto do meio-dia o sol, a pino, me punha ao ponto de derreter. Mesmo debaixo desse sol todo, uma das velhinhas cantava uma canção alegremente. Pensei em minha vida. Há quanto tempo não me dou ao luxo de cantar uma canção durante o trabalho? Aquela pequena senhora de lenço na cabeça fazia isso e, atrás dela, acompanhava-a o espectro de uma infinidade de mulheres. Havia um navio negreiro, havia um continente inteiro de mulheres que cantavam sob o sol escaldante, semeando campos e carregando filhos, envoltas panos de um colorido vivaz. A voz da pequena senhora me fez escutar a voz de suas parentas, pois todas elas cantavam com aquela mulher, sob aquele semáforo, na penosa tarefa de retirar da compaixão alheia um real em troca de uma pacote de balinhas.

Atravessando a rua, a outra velhinha, que a acompanhava, me ofereceu as balas. Eu não tinha um centavo sequer, e não pude comprá-las. Agradeci com um sorriso, e ela sorriu-me de volta numa resignação que me trincou os ossos. Quando cheguei em casa, bebi água como se tivesse atravessado o deserto, e me pus imediatamente a pensar naquelas duas senhoras pequeninas. Há quanto tempo estariam sem beber água... Desci a rua correndo, passei numa conveniência e comprei uma garrafa d’água grande. Fui ao encontro da senhora que me oferecera as balinhas, com a garrafa em mãos e mais um real para os doces. Expliquei-lhe que eu havia imaginado que, àquela altura do dia, debaixo daquele calor, elas deveriam estar com muita sede. Pedi-lhe que dividisse a água com sua colega cantora. Pedi-lhe também um pacotinho de balas.

A senhora não tinha os dentes conservados, mas tinha um sorriso inexplicável. Me olhou como uma avó olha uma neta, em sua relação maternal duplicada, e disse: “meu Deus, que amor que você é.” Disse-me que ia beber a água imediatamente. Antes de eu partir, me olhou com profunda sinceridade: “Deus te abençoe, minha filha”. Senti, realmente, que as palavras da mulher tinham algo de muito poderoso, pois voltei para casa sorrindo por dentro.

Por um instante, veio-me à cabeça o trecho final do filme “O Auto da Compadecida”, que gosto muito. Uma personagem, Rosinha, divide o único pedaço de pão que carrega com um pedinte à beira do caminho, e justifica-se: “às vezes, Deus se veste de mendigo para testar a piedade dos homens.” Eu acrescentaria que Deus também vende balinhas no semáforo. Obviamente, não fiz nada demais em oferecer água àquela senhorinha. Foi ela quem fez por mim: em troca da água, botou-me uma luz nos olhos que se derramou pelo resto do dia.

Salaam
Layla

Sexta-feira, Fevereiro 13, 2009

Presença

Hoje, depois que desliguei o telefone, fui tomada pela estranha sensação de que você estava ao lado. Que mágica é essa que costura distâncias, atravessa quilômetros e faz um beijo seu tocar meu rosto? Eu quase vejo sua silhueta na casa escura, quando a lua vem tocar minha janela. Olho para ela como quem se dirige à testemunha do diálogo que mantemos a quilômetros, diariamente. Certamente, do lugar onde ela está, consegue ver nós dois ao mesmo tempo.

Hoje alguém me disse que a grande recompensa de tudo é acordar no domingo e ter alguém com quem compartilhar o café. E eu me lembrei dos inúmeros cafés que compartilhamos aos domingos, quando eu estava lá, ou quando você estava cá. Nos levantávamos tarde, e eu preparava um capuccino com muita canela, uns pães de queijo. Nunca a felicidade foi tão simples.
Tão simples que não há palavras para descrevê-la: floreia-se aqui e ali, e já não é felicidade. É que acho que a felicidade não gosta de firulas. Ela é tão direta, ela simplifica tudo. Não gosta de adjetivos difíceis, de vocabulário rebuscado. Felicidade é apenas o som de alguém batendo à porta. Um telefone tocando, madrugada adentro.

Felicidade é uma coisa que eu aprendi a tocar com as mãos quando você chegou. Quando você veio, assim que eu abri a porta, alguém me disse para tomar muito cuidado pois, dali em diante, iria chover felicidade, e com tanta força, ao ponto de derrubar todas as cercas, semear todos os campos, fecundar a terra árida. Quando vejo tuas mãos entrelaçadas às minhas, entendo o que é ter a felicidade na ponta dos dedos.

Salaam
Layla

Este girassol, coloco aqui, em homenagem à minha bisavó...

Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009

Sobre a formatura da filha

Quando eu tinha cinco anos de idade freqüentei uma escolinha pela primeira vez. Chamava-se Cecília Meireles; não por acaso, acredito eu. O uniforme era azul marinho, uma cor que eu detestava imensamente, sobretudo porque a camisa era xadrez, e era obrigatório usar-se umas meias vermelhas. Eu me sentia uma ave estranha, uma ave de pés vermelhos, uma ave horrenda e desengonçada. Era assim que eu, de fato, me enxergava, do alto de minhas cinco primaveras. Meu cabelo, fraquinho, por motivos que ainda hoje desconheço, não crescia nem por um decreto, e eu ostentava uma aparência de menino. Nessa época, tenho uma lembrança viva: a separação da mãe, o abandono do colo pela sala de aula. Isto deve ter doído. Lembro-me exatamente de atravessar os portões da escola e subir a rampa chorando escondido, para que minha mãe, na calçada, a me ver entrar, não flagrasse minha compreensível fraqueza de criança.

Dois anos depois, passei a freqüentar a escola, propriamente dita. Também me lembro do primeiro dia de aula. Na verdade, lembro-me mais ainda dos momentos que o antecederam. Eu iria estudar à tarde e, pouco antes do horário de almoço, fui tomar um banho para me preparar para a estréia entre as crianças grandes. Lembro-me exatamente do banheiro, da cena que eu via na antiga casa, da angústia a me devorar o estômago, do medo do desconhecido, da professora concebida apenas em fantasias. Depois do banho, minha mãe me vestiu com uma camiseta amarelinha, de mangas longas, e me levou para a aula. O resto, não lembro mais.

Vinte e dois anos se passaram desde o primeiro dia de aula, e me vi naquele ginásio cheio, colando grau pela segunda vez na vida. Enquanto me lembrava dessas cenas distantes, ouvi meu nome ser chamado pelo reitor, numa mesa lá adiante, muito longe de mim, me convocando a comparecer à frente para buscar um diploma de honra ao mérito que eu havia ganhado como melhor aluna do meu curso. Nessa hora despertei de minha bolha particular, onde a pequena criança iniciava sua vida. Peguei o certificado e, de volta a meu lugar entre os formandos, procurei minha mãe na arquibancada, e percebi que chorava. Levantei-me da cadeira, aproveitando a balbúrdia causada pela miríade de estudantes presentes, estiquei com os braços aquele papel em mãos e gritei à minha mãe: “é para você”.

Isto não era nenhuma mentira. Obviamente, o meu diploma, conseguido com o suor de cinco penosos anos de uma faculdade integral, entremeados ainda com meu trabalho como bailarina, é algo por que lutei pensando em mim, e naquilo que eu poderia fazer aos outros como psicóloga. Mas aquela média de 9,468 durante a faculdade, aquilo não é meu, aquilo é de dona Terezinha, aquela pequena mulher na arquibancada, com seus louros cabelos e seus olhos claros como um favo de mel.

Dona Tê, como assim a conhecem, é a mulher mais forte que conheci em toda a vida. Lembro-me de raras ocasiões em que a vi chorar, e eram cenas tão escassas, que a cada vez me impressionavam muito, pois eu sabia que não tão cedo eu voltaria a ver aquela mulher demonstrar um milímetro de fraqueza. Eu já sou bem diferente. A cada desmantelo, a cada rasgo, sem nenhuma vergonha, aceitei o trabalho paciente da mãe-costureira, a me remendar por dentro. Não por poucas vezes, a vi gritar enérgica comigo: “você é uma mulher ou é o quê?”.

Se há algo de bom dentro de mim, muito desse algo foi construído pelas mãos pacientes de Dona Tê, a me ensinar a ser um ser humano. A mulher que nunca vi ruir, que nunca vi se desesperar. Muitas vezes, quando me via beirando o precipício, eu a escutava dizer: “não se preocupe, que vamos segurar as pontas”.

Certa vez, na primeira faculdade que cursei, História, fui agredida verbalmente, de forma grotesca, por um imbecil que comigo estudava, por tentar defender um gato que o infeliz visava maltratar. Voltei para casa muito abalada e, bem nesse dia, ligou-me a mãe-costureira para saber como eu estava. Contei o ocorrido quase chorando, e jamais me esqueço do que ela disse, do alto de sua força e de sua fleuma: “a minha dor... é não poder colocar você de novo dentro da minha barriga”.

Os anos se passaram, e lá estava Dona Tê, no ginásio, atrás de seus óculos de aro roxo. Ao lado dela, na arquibancada, minha irmã, meu melhor amigo, minha pequena família, formada por meu namorado e meu enteado, e meu professor de árabe, o sheikh que me recebeu em sua família como uma segunda filha, e a quem tenho como um presente precioso dado pela vida. Mais adiante, minha grande amiga e inspiração diária, com sua família sorridente, que se dirigiu àquele ginásio no único intuito de me ver formada.

Cheguei à pueril e óbvia conclusão de que eu não sou absolutamente nada sem essas pessoas.

Obrigada.

Salaam
Layla
Imagem: "Maternidade", Pablo Picasso.

Sábado, Janeiro 31, 2009

Amar

Sei que nossa mostra de dança aconteceu há quase dois meses mas, mesmo que eu esteja consideravelmente atrasada, resolvi publicar aqui algo para que as pessoas saibam como foi o espetáculo. Como sou absolutamente suspeita, e também porque minha opinião sobre nosso trabalho todos já conhecem, resolvi me "apropriar" das palavras da jornalista Célia Musilli, disponíveis, entre tantos outros belos escritos, em seu blog, Sensível Desafio (http://sensivelldesafio.zip.net/index.html). Agradeço desde já a todas as pessoas que, mesmo de longe, enviaram-me bons pensamentos, desejaram-me sorte e estiveram presentes em intenção. Um beijo meu a todos vocês. A distância é mesmo bobagem e, como diria Cecília Meireles, um mar de estrelas se balança entre o meu pensamento e o de vocês.

Eterno feminino

Assisti à mostra anua da Companhia de Danças Árabes Rhamza Alli ontem à noite. Na primeira parte, a coreografia "Amar" - que significa lua em árabe - trouxe uma rica simbologia associada ao inconsciente e ao instinto feminino. A lua se relaciona ao ciclo de vida da mulher e aparece no balé em suas fases luminosas e também na representação de Lilith, a lua negra. É preciso ser um bocado lunar para perceber as sutilezas desta coreografia. À primeira vista, o público se sente mesmo atraído pela beleza dos movimentos e do cenário que traz projeções de imagens associadas à mulher, ao seu mundo consciente e inconsciente. Das emoções obscuras à luminosidade, os arquétipos estão todos lá, sob a forma de dança que celebra a sobrevivência do feminino mesmo em desertos inóspitos, condensando na arte a alegria de viver, os ciclos de fertilidade e reprodução.
A segunda parte trouxe danças folclóricas, abrindo a oportunidade de participação a alunas de diferentes estágios, reunindo em coreografias desde meninas até mulheres maduras. A dança do ventre é uma arte para todas as idades, algo que se equipara a saber fazer vinho ou perfume. A técnica, a sabedoria e o talento se aprimoram com o tempo. Este conceito é levado muito a sério na escola de Rhamza Alli, onde tive o prazer de estudar por quase dois anos, aprendendo dança e alguma coisa a mais sobre a feminilidade. A escola preserva a tradição, utilizando a arte como forma de expressão cultural, muito acima do sentido "midiático" que transforma a dança, muitas vezes, num "show de mulheres sensuais". Sensualidade todas têm de sobra, mas há nesta escola um cuidado ético de apresentar as meninas como meninas e as mulheres como mulheres. Em nenhum momento atropela-se a infância ou a maturidade. Coreografias e figurinos são adequados para revelar a dança do ventre como uma arte de celebração feminina, exercendo-se a beleza e a profundidade de um conceito que, na sua essência, beira o sagrado.


A terceira e última parte trouxe a dança tribal, que carrega a ancestralidade de uma arte única, que não brota só do corpo, mas da alma. Uma espécie de ritual em que a coreógrafa e bailarina Rhamza Alli se entrega à sua determinação de viver pela dança. Ela é uma expert neste estilo. Precursora da dança tribal no Brasil, certamente pode ser considerada uma das melhores bailarinas do gênero no País. Com técnica exímia, ela faz movimentos de difícil execução com uma graça e conhecimento que superam o caráter de "espetáculo." Seu ventre, braços e pernas não apenas se movimentam, vibram, numa espécie de transe artístico que desloca a atenção da platéia para situações que parecem apontar para dimensões mais sutis da criatividade. Não é apenas o seu corpo que dança, sua alma dança. E o que se vê é um balé bastante intuitivo, embora firmemente amparado numa técnica apurada por gerações e gerações de dançarinas nômades. É como se todas estas mulheres desembarcassem na contemporaneidade para celebrar o eterno feminino.

Por Célia Musilli
08/12/2008
Obrigada Célia!
Salaam
Layla
As imagens estão dispostas na seguinte ordem:
Primeira foto: Layla Badawya, "Badr" (Lua Cheia);
Segunda foto: Carol Kudse, "Layl" (A Noite);
Terceira foto: Rhamza Alli e Marciano Boletti, "Milaya Laff";
Quarta foto: são tantas meninas! "Raks al Juzur" (dança do jarro);
Quinta foto: Layla Badawya, Mariângela Bittar e Ãngela Cinda, "Raks al Assaya" (dança das bengalas);
Sexta foto: Layla Badawya, "Raks al Sayf" (dança da espada);
Sétima foto: Cia. Rhamza Alli, dança dos pandeiros, gran finale.
Crédito das imagens: Rafael Reina

Quarta-feira, Dezembro 03, 2008

Do coração e do ventre

Muitas vezes fico longos períodos sem escrever aqui, e depois apareço me justificando. Na verdade, nem sei porque faço isto, uma vez que não gosto de dar nem de pedir justificativas... O caso é que, desta vez, trago a público um dos motivos de minha ausência, sob a forma de convite.

A dança sempre ocupou um espaço primordial em minha vida. Em muitos tempos difíceis, ela me foi a grande terapeuta. Antes de eu aprender (ainda não aprendi direito...) a resolver as coisas em minha cabeça, aprendi a resolver no corpo. Aprendi a me aceitar, a achar bonito o meu imenso quadril de beduína parideira, a admirar o trabalho feito por minhas mãos. Nesses nove anos de dança, produzi cada roupa, cada adereço que utilizei, e todos com o exercício contínuo da paciência e da dedicação. Em épocas sombrias, os pontos dados nas roupas eram costuras em meus próprios rasgos, e assim eu aprendi a ser costureira e a ser mulher.

Hoje, num momento em que me sinto tão mais feliz, a dança continua me acompanhando. Este ano, produzi muitas coisas relacionadas a ela. Nosso espetáculo de fim de ano, Amar (“lua”, em árabe) é o resultado de um ano de trabalho intenso... Meus joelhos permanentemente roxos que o digam...

Sinto-me feliz, às vésperas da apresentação, por ter consciência de minha entrega. Por ter conhecimento de que não estarei, nesse domingo, sozinha em meu corpo: meus quadris, os dedico a milhares de anos de história e a memória de todas as mulheres eu carregarei comigo. Quando danço, sinto como se um fio tênue me unisse a elas. O meu personagem é a Lua Cheia: a maternidade realizada, a mãe que nutre e acolhe. Nos meus ramos de trigo depositei toda o sentido simbólico da minha doação. Eu, que não tenho filhos, aprendi a vivenciar a maternidade do meu jeito: a parir aqui, inúmeras palavras e, no palco, dar à luz música e movimento.

Orgulho-me de dizer que este espetáculo tem uma razão de ser, um significado. Em nossa companhia de dança, a técnica sempre foi muito importante, mas sozinha ela nada pode transmitir. Como em todos os nossos espetáculos anteriores, costumamos focalizar temas mitológicos, arquetípicos. Em Amar, as fases da lua são relacionadas ao feminino e ao ciclo da vida: a lua crescente é concebida como uma metáfora para a fertilidade potencial de cada mulher. A lua cheia representa a maternidade, a mãe nutridora e acolhedora, ao passo que a lua minguante é sua imagem complementar: o feminino que ceifa e destrói, guiado pelas emoções difíceis. A lua nova representa o renascimento e reinício do ciclo: o feminino se mantém, mantendo vivo o mundo, dando-lhe razão de ser, dando-lhe continuidade.

Isso sem contar as danças tribais, de inspiração norte-africana, árabe, hindu e cigana. São minhas preferidas. Quando tatuo meu rosto e vou dançar, entendo que isto seja uma pequena vitória contra todos os momentos em que me sabotei, em que agi contra mim mesma, em que cultivei sentimentos de desamor e de baixa auto-estima. Eu danço para reagir a tudo isso: como afronta, como resposta, como centelha de viver, como diria Clarice Lispector.

AMAR

Companhia Rhamza Alli de Danças Árabes

07 de dezembro
21 horas
Teatro Marista

Londrina, Paraná, Brasil


Salaam
Layla

(Imagem: Rhamza Alli fotografada por Milton Dória)