Sexta-feira, Janeiro 27, 2012

Da arte de dar nome ao que não tem nome, pois assim saberemos que existe.

Tenho ciúmes
Das verdes ondas do mar
Que teimam em querer beijar
Teu corpo erguido às marés

Tenho ciúmes
Do vento que me atraiçoa
Que vem beijar-te na proa
E morre pelo convés

Tenho ciúmes
Do luar da lua cheia
Que no teu corpo se enleia
Para contigo ir bailar

Tenho ciúmes
Das ondas que se levantam
E das sereias que cantam
Que cantam pra te encantar

Ó meu amor marinheiro,
Ó dono dos meus anelos,
Não deixes que à noite a lua

Roube a cor aos teus cabelos

Não olhes para as estrelas
Porque elas podem roubar
O verde que há nos teus olhos
Teus olhos, da cor do mar.

(Carminho, "Meu amor marinheiro")

O fado é mesmo uma linguagem que consegue transmutar em palavras coisas que, por sua natureza, são intraduzíveis. Não é música. É uma maneira de enfiar-se a mão no peito e de lá arrancar tudo o que queria sair e não encontrava caminho.

Desde sempre, assombra-me e fascina-me a mentalidade mítica portuguesa. Não poderia ser de outra forma em se tratando de uma cultura que tem em seu rastro os Lusíadas, com seus seres mágicos a contracenar com os homens. Um povo que trouxe ao mundo as palavras de Pessoa, salgadas de mar e de lágrima. Um lugar onde as mulheres têm conchas no vestido, algas na cabeleira, em cujos xailes as gaivotas vêm pousar(1). Não conheço na história de minha família qualquer ascendência portuguesa. Por que será que algo me imanta a este país, este lugar cujo chão meus pés desconhecem?

Talvez eu seja mesmo uma apátrida. Ou melhor, talvez meu lugar de origem seja esse mundo despido de fronteiras que é o incosnciente coletivo, esse lugar profundo e obscuro, nossa "longa cauda sauriana" onde se encontram as memórias da humanidade inteira. Estas esperiências abissais, numinosas, gigantescas... Só mesmo nesse país sem dono um poema como "Meu amor marinheiro" poderia nascer. O amado não é apenas um simples marinheiro, objetivamente falando. É um homem do Mar, esse mesmo mar salgado de lágrimas das mulheres que ali ficaram, ao observar na falésia os maridos e filhos partirem, "para que fosses nosso, ó mar" (2). Esse mar das tormentas, por onde chegavam os aromas e o pensamento doutras terras. Esse mar de encontros e desencontros que tantos homens sepultou.

Nesse lugar mítico, nesta noite fora do tempo, tudo ganha vida: o corpo do amado é como a embarcação beijada pelas ondas, pelo vento e pela lua cheia. A natureza se personifica e se agiganta e todos voltamos a ser do mesmo tamanho, num sentimento medieval de "unnus mundus", a certeza de que tudo se encadeia e faz parte de um Todo maior. No mar de Carminho, homens, peixes, embarcações, luas, vento, ondas, estrelas - tudo está encadeado, entrelaçado, no colo silencioso da noite, esta nossa mãe escura.

E num momento em que tais coisas poderiam ser apenas sentidas de forma muda, não-verbal, vem-me uma alma portuguesa e me escreve este fado. Traduz o intraduzível, risca o inefável do dicionário... Que é da alma portuguesa dar nome aos sentimentos e nos fazer saber que eles existem.

Salaam
Layla

em português,
Noite.



(1) Desnecessário mencionar que aqui há uma alusão à canção "Maria Lisboa", imortalizada por Amália Rodrigues.
(2) Sei que choverei no molhado ao dizer que se trata de um verso de Fernando Pessoa. Todos já sabem que tomei emprestado...

Esta postagem é dedicada a Camila Oliveira. Não bastasse ser uma grande amiga, foi quem me apresentou a voz de Carminho. :)

Sexta-feira, Novembro 18, 2011

Das respostas

Às vezes penso nos blogues por assim dizer, "populares", em cujas postagens são deixados dezenas ou até centenas de comentários. Eu considero uma espécie de fortuna ter por aqui às vezes dois, três, cinco comentários que, quando leio, me emocionam. Não raro, meus escritos são paridos entre muitas dores ("há uma gota de sangue em cada poema", não é, Mário de Andrade?). E em cada escrito, normalmente, brotam alguns comentários de pessoas que nunca olharam no fundo dos meus olhos mas que, em minhas dores do parto, se reconhecem. A cada escrito, recebo respostas que não são apenas palavras, são "centelhas de viver", na expressão de Clarice Lispector. Agradeço aos visitantes que deixam essas flores em minha porta. Um mar de estrelas se balança entre o meu pensamento e o de vocês*.

Salaam
Layla

O mar de estrelas, aqui inspirado:

Minhas palavras são a metade de um diálogo
obscuro continuando através de séculos impossíveis.
Agora compreendo o sentido e a ressonância
que também trazes de tão longe em tua voz.
Nossas perguntas e resposta se reconhecem
como os olhos dentro dos espelhos.
Olhos que choraram. Conversamos dos dois extremos da noite,
como de praias opostas. Mas com uma voz que não se importa...
E um mar de estrelas se balança entre o meu pensamento e o teu.
Mas um mar sem viagens.


(Diálogo, Cecília Meireles)

Quinta-feira, Novembro 10, 2011

Min zaman

Quando quero me lembrar de minha adolescência, tenho recordações de duas cores. Algumas são pura nigredo: sofrimento extremo, humilhação, rejeição e incompreensão. Outras são rubedo: vermelhas, apaixonadas, sanguíneas, vívidas, tão vívidas que parecem ter saído das paletas espanholas de Picasso. Dessas últimas, eu retenho algumas sensações inesquecíveis: os metrôs de São Paulo desembocando na rua 25 de março, a turba revolta que subia e descia a Ladeira Porto Geral como um rio de veias profundas, o cheiro de esfiha quente de zatar do Raful, a primeira máquina de escrever em árabe que vi (eu parecia José Arcadio Buendía, em Macondo, vendo pela primeira vez “o grande invento de nosso tempo”: o gelo*), o cheiro forte de incenso que vinha de dentro das lojas de produtos orientais, o ardor de um pedaço picante de chanclich, as arandelas árabes, de ferro, ornamentadas com aquela geometria mourisca e, sobretudo, a música árabe, meu primeiro registro do idioma que viria a ressoar em meus ouvidos como a voz materna, a voz de uma mãe doce, de uma origem perdida, imemorial, encravada nos ossos.

Na época, cds eram coisas caríssimas e inacessíveis, então a música árabe entrou em minha vida por meio de fitas cassete gravadas de alguma fita que fora gravada de outra fita que por sua vez fora gravada de outra, e de outra, e de outra, que fora gravada do disco original. Elas eram comercializadas em São Paulo e eram caras, então a reprodução maneira viável de obtê-las. Não sei que rumo minha vida teria tomado se não fosse essas fitas terem chegado até mim: todos os dias, a música árabe era minha psicoterapia e meu porto seguro: eu adormecia ao som da voz de George Abdo, que eu não sabia quem era, pois me lembro de que nas fitas gravadas estava escrito apenas: “dança do ventre”.

Mas a lembrança mais feliz de todas é a recordação da primeira imagem de dança árabe que tenho em minha vida, aos 14 anos, eu acho. O primeiro registro dessa arte que se tatuou em minhas retinas de uma forma tão profunda, mas tão profunda, que jamais eu pude me esquecer dele. Veio de uma fita VHS proveniente da casa de minha melhor amiga. Quando vi essa imagem, algo mudou dentro de mim e, finalmente, eu pude entender o que eu era.
Hoje me deparei com esse vídeo no youtube. Esta foi, sem sombra de dúvida, a primeira imagem de dança árabe em minha vida. A bailarina é Suhair Zaki, em alguma apresentação, creio eu, em meados dos anos 70. Para quem não conhece, esta mulher é uma lenda, um verdadeiro ícone da cultura árabe, mas na época, eu ainda não sabia. Não pude deixar de me emocionar ao ver novamente esses movimentos, que me trouxeram de volta aquela adolescente que não sabia nada de si, mas que passava a compreender, naquele momento, de que cores seu coração era feito.



Salaam
Layla

*Quem quiser compreender esta passagem da vida do inesquecível José Arcadio Buendía, ler: Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez.

Quarta-feira, Outubro 12, 2011

Da infância

Infância é aquele período da vida em que as coisas podem ser simples, como devem ser.

Paulo tinha fama de mentiroso.
Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões da independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas.
A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto a queijo. Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias.
Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá -lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico.
Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça:
– Nada a fazer, Dona Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia.

(Carlos Drummond de Andrade)

Feliz dia das crianças.
:)

Salaam
Shalom
Paz

Layla

Imagem: http://forabetterlebanon.files.wordpress.com/2009/01/arab_jewish_boysw560h384.jpg?w=560&h=384

Terça-feira, Setembro 13, 2011

Leva-me aos fados

Porque não há lugar para almas como a minha neste mundo, encontrei meu lugar dentro de um fado. Porque nesta dimensão da vida onde tudo é racional, binário, linear, sintético, lógico e excessivamente cortical, pessoas que circum-ambulam em torno dos sentimentos, como eu, são perda de tempo. E ninguém quererá perder seu tempo comigo.

Porque minha solidão e meu retraimento são inadmissíveis nessa cultura onde tudo nos impele a uma sociabilidade forçada, encontrei meu lugar dentro de um fado. Encontrei meu refúgio para um mundo bruto, grosseiro, em que se resolve pela força qualquer tipo de diferença. Este mundo é dos fortes, e eu sou fraca. Minha fraqueza só cabe dentro de um fado, em mais nenhum lugar.

Só o fado acolhe minhas longas explicações. Só o fado acolhe o meu silêncio. Minha avassaladora desimportância, apenas no minúsculo interstício entre duas notas de uma guitarra portuguesa encontram seu lugar. Na voz grave, sôfrega e trêmula de uma mulher que canta cabe a história da minha vida, o contorno de minhas mãos e algo vago vindo dos meus olhos. Meus estranhos olhos tristes não têm lugar neste mundo.

Felizmente há o fado em meu caminho, e seus braços gentis. Aos órfãos de entendimento, aos carentes semelhança, há o fado em seu caminho. Há o fado em seu caminho, a todos aqueles que nasceram com o mar bravo, a vaga revolta dentro do peito. Turbilhão contido em palavras nas quais todos os irreconhecíveis se reconhecem.

Salaam
Layla
Em português,
Noite.

Sexta-feira, Junho 03, 2011

Cíclico


Comovo-me com as menores coisas boas. Com gentilezas ridículas, risíveis, subatômicas. Eu, só eu, planto estrelas em lugares insignificantes, como quem semeia trigo em meio a um monte de pedras. Planto metáforas onde tudo é racional e árido. Nunca colhi nada, até agora...

É como se uma estranha maldição condenasse tudo a fenecer. Desde que ouvi as palavras encantatórias, tornei-me uma criatura sonambúlica que lhes obedece às ordens. E eis que uma estranha pulsão de morte se apossou de meus gestos, e meu trabalho tem sido apenas encaminhar as coisas ao seu final. Tudo o que toco, conduzo ao momento derradeiro. Como uma minúscula formiga operária cujo trabalho é abrir discretos túneis que levam ao precipício. Só ajo porque existe o fim. Se semeio um campo inteiro de trigo, é apenas para entregá-lo à sanha dos gafanhotos. Se escrevo quilométricos tratados, o faço com a finalidade exclusiva de que sirvam de alimento às traças.

Não ouso lamentar por nada. Apenas me entrego ao ciclo fundamental de vida-morte-vida que rege o mundo. Caem as folhas secas, e encravam-se em meu peito, decompondo-se em matéria úmida que há de fertilizar minha carne. Algo nascerá, nem que seja uma planta minúscula e raquítica, que alimentará as lagartas. E haverá algo de mim nas borboletas em que estas se transformarão.

Quando eu puder voar com elas, entenderei o que leva os seres a partir.

Salaam

Layla

Segunda-feira, Maio 16, 2011

...que chego a fingir que é dor a dor que deveras sinto.

Às vezes chegava a me sentir como dama, mas não passava de um peão que não alcançava a oitava fila do tabuleiro nunca. Fui sempre engolida antes mesmo da metade do caminho... Ao menos aprendi a pelear na frente, aos berros, enquanto a dama dormia na primeira fila, num torpor soporífero de ócio.

Salaam
Layla

O título da postagem é uma referência a Fernando Pessoa.
Autopsicografia
O poeta é um fingidor. /Finge tão completamente, /que chega a fingir que é dor /a dor que deveras sente. /E os que lêem o que escreve, /na dor lida sentem bem, /não as duas que ele teve, /mas só a que eles não têm. /E assim nas calhas de roda /gira, a entreter a razão, /esse comboio de corda /que se chama o coração.
Imagem: http://jwmulligan.wordpress.com/2009/11/23/fernando-pessoa-6-the-chess-game/

Sábado, Abril 23, 2011

Necessária visita a mim mesma

Vim preparar a terra, arrancar as ervas daninhas e cuidar do meu blogue...

Há tanto que não consigo tempo ou energia para vir escrever, e acabei por deixar abandonada esta minha pequena casa, meu minúsculo planeta. Um mestrado em curso, o trabalho clínico, a estrada como casa e, além de tudo isso, um interior povoado por sentimentos tão contraditórios quanto inéditos. Poderia ter escolhido uma vida calma, fútil, quotidiana e tributável, como diria meu querido Pessoa, vestido de Álvaro de Campos. Mas escolhi estender múltiplos braços, abraçar vida acadêmica, dança, clínica e o coração das pessoas. Este último, só consegui alcançar mal e toscamente...

Trabalho, remendo-me, machuco-me, corto-me, costuro-me o tempo todo. E pouco escrevo. Então hoje vim preparar a terra para plantar mais rosas, vim cuidar de meus vulcões, mantê-los acesos para que possibilitem que a vida por aqui continue. Continuo correndo e com o tempo exíguo, mas hoje, sentarme-ei aqui, e verei o pôr-do-sol. Aprendi com Exupéry que é assim que deve ser.

Salaam
Layla

Imagem: http://blig.ig.com.br/muitoprazerdiversaoafins/files/2009/01/pequeno-principe.gif

Terça-feira, Janeiro 25, 2011

Dos abalos.

O teu corpo sobre o meu
mil arquétipos encerra
é a terra se abrindo aos céus
e o céu fecundando a terra.
Salaam
Layla

Segunda-feira, Janeiro 24, 2011

Tudo muito simples.

O amor é finalmente
um embaraço de pernas,
uma união de barrigas,
um breve tremor de artérias.
Uma confusão de bocas,
uma batalha de veias,
um reboliço de ancas,
quem diz outra coisa é besta.

(Gregório de Matos, abrindo-me olhando o que há por dentro).

Salaam
Layla

Quinta-feira, Janeiro 20, 2011

Dos abismos

Às vezes, fechava os olhos e acordava para dentro. Sentia-se como se tomasse uma gigantesca escada em caracol que leva a abismos. Às vezes, a superfície era plácida como o mar sem ventania, mas, por dentro, havia uma profusão de cavalos negros, a correr.

Dentro, o sangue a pulsar, um exército vermelho nas veias, uma descendência de Eva, artérias com sinuosidade de serpente. Havia fome e sede, havia trens descarrilhados, havia carruagens governadas por cavalos, e não por cocheiros.

Havia algum lugar inabitável, inóspito, de vermelho chão de Marte, encarnado, escarlate. Havia tudo o que pode explodir a qualquer momento. E, afortunadamente, com a Graça do mundo, eis que tais abismos irrompem na superfície como a lava de um vulcão. Destroçam tudo ao redor, instauram o caos, revolvem a terra e trocam coisas de lugar. Como uma bênção que só pode adentrar a casa estilhançando vidraças, essa incandescência noticia:

"Estás viva".
Salaam
Layla

Imagem: Obra da genial Teresa Costa Rêgo, "Paisagem em vermelho". Disponível em: www.terezacostarego.com.br

Quinta-feira, Dezembro 30, 2010

Do que é roto e maltrapilho

Não costumo me utilizar de finais de ano para pensar sobre "o que deu certo e o que deu errado em 2010" porque, para mim, um ano não significa muita coisa. É um recorte temporal qualquer, e não acho que 1º de janeiro seja um dia diferente, que descortine algo novo ou que marque o início de novos ciclos. Em suma, meus questionamentos sobre mim mesma nada têm a ver com o calendário. Se os faço hoje, eles não são parte de uma "retrospectiva 2010". Meus questionamentos têm sido uma resposta a muitas coisas que vêm acontecendo, num longo processo, durante o qual abdiquei do posto de protagonista de minha vida. Deixei vago esse lugar tão importante para me tornar coadjuvante em vidas que não são minhas. Deixei uma lacuna nesse lugar fundamental. O resultado desse tipo de atitude é sempre catastrófico.

Eis me aqui, agora, em carne viva novamente, e necessitando de um pouco de afago. Sei exatamente o que faço quando encontro alguém assim, "em carne viva". Jamais consigo ser omissa. Sempre ofereço minha agulha e linha, e digo: "vai, vamos costurar". E, caídos que somos, vamos ajudando os outros a se remendar, no "exercício da automedicina", como costumo dizer. Mas, e quando o corte é meu? Acostumei-me a ficar aqui sempre esperando a agulha dos outros...

O fato é que parece que, para mim, é muito fácil acolher o traidor alheio, o pecador alheio, o bandido alheio, e perdoá-lo. Mas, infelizmente, eu nunca consegui acolher o "meu" pecador. Nunca consegui tomar o que tenho de miserável e infeliz e dar a isto a atenção que isto merece. Acho que sempre houve uma menina infeliz querendo atenção dentro de mim, e eu passei a vida buscando a atenção dos outros para ela. Percebo que é hora de pegar esse menina e colocá-la em meu colo. Pegar o que tenho de defeituoso, de infeliz, e dar um pouco de atenção. Assim como, até mesmo em minha profissão, meu dever é dar atenção à infelicidade dos outros. Preciso me escutar também. Da mesma forma como não desejo que apedrejem meus queridos, não posso permitir que façam isto comigo. Preciso cuidar de mim. Me costurar. Tarefa árdua e solitária, tarefa de eremita. Porque é só minha.

Só eu sei o tamanho dessa dor. Sei o que me custa parar o dia de hoje e escrever aqui. Um dia em que sinto uma solidão inesgotável me trincando os ossos; sinto o caco de vidro em que me tornei. Translúcido, cortante. Autocortante, diria. Um coração atrofiado por tanta negligência.

Novamente, boto agulha na linha e começo a me costurar os rasgos. Preciso ter paciência de me aceitar. Aceitar em mim tudo o que é roto e maltrapilho.

Lembro-me de uma passagem bíblica.

Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai. Possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo;

porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me acolhestes; estava nu, e me vestistes; adoeci, e me visitastes; estava na prisão, e fostes me ver.

Então os justos lhe perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? Ou com sede, e te demos de beber? Quando te vimos forasteiro, e te acolhemos? Ou nu, e te vestimos? Quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos te visitar?

E responder-lhes-á o Rei: Em verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um desses meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes.

(Mateus, 25:34-40).

Sinto que é hore acolher o faminto, o sedento, o forasteiro, o nu, o doente e o prisioneiro que me habitam. Devo acolher o "pequenino" que sou eu. Devo acolher que há em mim de mais rasteiro. E ter tanto cuidado e compaixão por mim, quanto procuro ter por tudo o que está fora de mim.

Afinal, se abandonei a cadeira de protagonista de minha vida, a responsabilidade é única e exclusivamente minha. E nem sei o tamanho da dor de se dizer isso.

Salaam
Layla

Sexta-feira, Dezembro 17, 2010

Da docilidade que nos adoece

Certa vez, estava eu na terapia me queixando do fato de que as pessoas "nunca me percebem", "nunca me levam em conta"... Meu terapeuta, honestíssimo, me devolveu: "como você quer que te percebam, se você não se mostra?". Foi aí que percebi que construí, ao longo de toda uma vida, essa espécie de "burqa psicológico", que me esconde até dos mais próximos. Sempre foi muito fácil para mim não dizer o que havia por dentro, para não pertubar o mundo ao redor. Sempre me considerando um estorvo, um móvel velho e dispensável, uma criatura desimportante que não deveria importunar os demais. Na primeira visita à homeopata, quis compreender para quê era aquele remédio que me receitava. "Para quem sofre calado".

Foi assim que compreendi porque meu estômago doía tanto. Ao engolir de tudo, e não vomitar nada, me transformei numa criatura dócil, que mal nenhum causava a ninguém. A ninguém, a não ser a mim. Ao me cansar do silêncio que me engessava a respiração, comecei, pouco a pouco, a falar. E percebi o quão estrondosa é a fala de quem sempre viveu mudo. Quanta inquietação causam as palavras de quem sempre abriu a boca para apenas dizer amém. A primeira reação das pessoas é que você está insano, passando dos limites. Que você "não tem paciência com as coisas". Tudo porque, depois de manter os lábios cerrados por tanto tempo, você decidiu aprender a falar.

Certa vez, escutei que é possível morrer de tanto se dizer sim. Quando você decide aprender a dizer não, resgata uma parte importante de sua dignidade. Você dá ao mundo externo algo imprescindível para a manutenção de sua saúde psíquica: limites.

Creio ter aprendido que a paz de espírito é algo que, às vezes, só vêm quando fazemos força e movemos uma pedra grande. Uma paz que só vem depois da inquietação causada por um "não" que queria sair de dentro da boca. Só vem quando você resolve falar, mesmo que o mundo só congratule os mudos, os afáveis, os dóceis.

E eu prefiro ser inteira a ser dócil.

Salaam
Layla

Imagem: Marcelo Pliger, sobre a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci. Para conhecer melhor seus trabalhos: http://pliger.net/eu/

Terça-feira, Dezembro 14, 2010

O centro e a margem

Prefiro viver minha vida andando pelas margens com a cabeça erguida e com dignidade e decência a vender minha alma por um lugar no centro. Quem tem ouvidos de entender, que entenda. E em quem a carapuça servir, fique à vontade para se envergonhar. Aliás, espero mesmo que se envergonhem, pois caso contrário esse mundo não tem mesmo mais conserto.

Que dureza que a meta da vida de tanta gente seja os holofotes, a qualquer custo! A custo da vida dos outros, do sonho dos outros!

Vamos, envergonhem-se! Tornem-se seres humanos! Ainda há tempo!

Salaam
Layla

Quinta-feira, Dezembro 02, 2010

Raks Rhamza

Queridos amigos, já se tornou tradicional meu convite para os espetáculos de dança que realizamos anualmente. Quem me conhece sabe da minha relação com a dança árabe, uma estreita convivência que há 11 anos tem sido meu oxigênio. Este ano, nosso espetáculo está especialíssimo, pois celebra os 25 anos de carreira de Rhamza Alli, a professora que ensinou aos meus quadris tudo o que eles sabem.

Fazer parte dessa comemoração é, para mim, algo muito gratificante. Acho que posso me considerar testemunha de um trabalho digno, guerreiro, com substância, muito diferente daquilo que se tornou o "mercado" da dança do ventre no Brasil (aliás, para mim, a combinação "mercado" e "dança" será sempre esdrúxula). Penso que hoje a dança tenha se tornado sinônimo de silicone, corpos inatingíveis, figurinos milionários e divinização de seres humanos que são, é claro, do mesmo tamanho que os outros. Um meio onde o os egos vivem na estratosfera, onde as lantejoulas escamoteiam a vaidade, a violência e a brutalidade nas relações.

A Companhia Rhamza Alli, a meu ver, ainda se preocupa com o princípio daquilo que chamamos "tribo", tão conhecido de nossos inspiradores beduínos. Aqui, somos um coletivo, que só é forte porque é grupo. Todos os anos, cada mulher desse grupo empresta seu corpo para que o feminino arquetípico nele tome forma, ganhe vida e se manifeste em beleza e movimento. Por trás de nosso trabalho, existem milhares de anos de história das mulheres, e consigo ouvir a voz de todas elas quando subo no palco. Me sinto almada e digna. Me sinto feliz por meus ovários, por meu útero, por meu corpo cheio de sementes. Consigo compreender que é nos quadris das mulheres que o Universo se sustenta.

Salaam
Layla

RAKS RHAMZA 25 anos
Espetáculo de comemoração dos 25 anos de carreira de Rhamza Alli
Sábado, 11 de dezembro de 2010 - 21 h
Teatro Ouro Verde - Londrina, PR, Brasil
Informações: (43) 3341 4194 - Rhamza Alli Escola de Danças Árabes