Happy Diwali
Hoje é celebrado o Diwali, grande festival hindu também conhecido como o "festival das luzes". Resolvi falar aqui sobre este importante acontecimento religioso porque nós, ocidentais, quase sempre marcados por nosso umbigocentrismo, deixamos escapar aos nossos olhos e corações verdadeiras jóias que ocorrem do outro lado do mundo. E o significado do Diwali merece ser celebrado pelo globo inteiro.Diwali é uma palavra em sânscrito que significa algo como uma "fileira de lâmpadas", um conjunto de luzes. A luz das diyas (pavios de cordinhas de algodão mergulhados em potinhos de barro, cheios de óleo) significam a vitória do bem contra o mal dentro de cada pessoa.
No hinduísmo, em muitas partes da Índia e do Nepal, o Diwali simboliza o retorno de Rama ao lar, após 14 anos de exílio na floresta, e sua vitória sobre Ravana. A história conta que o povo de Ayodhya, capital do reino de Rama, o recepcionou com pavios de algodão iluminados (avali) em lâmpadas (dipa), daí o nome, também conhecido como dipavali. No sul da Índia, o festival marca a vitória de Krishna sobre Narakasura. No jainismo, o Diwali marca a chegada de Mahavira ao nirvana, em 15 de outubro do ano de 527 a.C. O festival é ainda comemorado pelos sikhs, e representa a iluminação da cidade de Amritsar, como comemoração pelo retorno do Guru Har Gobind Ji (1595-1644), o sexto Guru dos sikhs, que estava aprisionado junto a outros 52 reis hindus pelo imperador Jahangir. Depois de libertar os outros prisioneiros, ele foi até o Templo Dourado (Harmandir Sahib), onde foi recebido pelo povo que comemorava com velas acesas. Por causa disso, os sikhs comumente se referem ao Diwali como Bandi Chhorh Divas, ou "o dia da libertação dos cativos". O festival é comemorado também pelos budistas do Nepal.
Pode-se dizer que o significado espiritual mais importante do Diwali seja "a consciência da luz interior". Em tempos sombrios como os nossos, considero imporante que ouçamos esse chamado, sempre presente, mas tão negligenciado, do ponto de luz que fala dentro de nós. Penso que qualquer um pode ouvi-lo, desde que silencie o barulho dos outros sentimentos, dos instintos mais grosseiros que, comumente, querem reger nossa carruagem. Alimentar essa pequena luz é uma tarefa diária, pedregosa, mas benfazeja.
Desejo do fundo do coração que a iluminação interior, a voz da consciência, sempre boa, fale alto a cada um de todos os que visitam esta minha casa. E que, como para os sikhs, esse sentimento propicie nossa libertação dos tantos cativeiros a que nos prendemos. A cada um de vocês, ofereço uma velinha, com todo o meu afeto.
Salaam
Layla
(As informações desse texto foram traduzidas livremente da página http://en.wikipedia.org/wiki/Diwali.
Imagem: http://kalisipudi.wordpress.com/2008/10/28/where-are-those-lights/ )


Há um certo tempo, ando numa fase de recolhimento que algumas pessoas não compreendem. Na verdade, sempre fui uma pessoa introvertida e, por isso mesmo, já fui considerada, em muitas situações, antipática ou antissocial. Normalmente, não gosto de grandes festas, não gosto de boates, não gosto de música alta e não gosto de passar muito tempo longe de minha casa. Isso pode parecer uma imensa chatice, mas muitas pessoas são assim e creio que devam ser respeitadas em suas idiossincrasias. Quando visito as pessoas que gosto, o faço com o coração muito aberto e a distância não arrefece para mim, em um milímetro, o afeto que sinto pelos que me são caros. Isso não significa que eu seja uma ilha, mas que eu seja dada a manifestações de afeto diferentes daquelas que o mundo hoje nos exige, diferentes de uma sociabilidade forçada, convencionada, que obriga que gostemos todos das mesmas coisas, que pensemos todos da mesma forma.

Maria, Maria
Uma mulher que merece viver e amar
Maria, Maria
De uma gente que ri quando deve chorar
Mas é preciso ter força
Quem traz no corpo a marca
Mas é preciso ter manha
Quem traz na pele essa marca
(M. Nascimento / F. Brant)



Assisti à mostra anua da Companhia de Danças Árabes Rhamza Alli ontem à noite. Na primeira parte, a coreografia "Amar" - que significa lua em árabe - trouxe uma rica simbologia associada ao inconsciente e ao instinto feminino. A lua se relaciona ao ciclo de vida da mulher e aparece no balé em suas fases luminosas e também na representação de Lilith, a lua negra. É preciso ser um bocado lunar para perceber as sutilezas desta coreografia. À primeira vista, o público se sente mesmo atraído pela beleza dos movimentos e do cenário que traz projeções de imagens associadas à mulher, ao seu mundo consciente e inconsciente. Das emoções obscuras à luminosidade, os arquétipos estão todos lá, sob a forma de dança que celebra a sobrevivência do feminino mesmo em desertos inóspitos, condensando na arte a alegria de viver, os ciclos de fertilidade e reprodução.
A segunda parte trouxe danças folclóricas, abrindo a oportunidade de participação a alunas de diferentes estágios, reunindo em coreografias desde meninas até mulheres maduras. A dança do ventre é uma arte para todas as idades, algo que se equipara a saber fazer vinho ou perfume. A técnica, a sabedoria e o talento se aprimoram com o tempo. Este conceito é levado muito a sério na escola de Rhamza Alli, onde tive o prazer de estudar por quase dois anos, aprendendo dança e alguma coisa a mais sobre a feminilidade. A escola preserva a tradição, utilizando a arte como forma de expressão cultural, muito acima do sentido "midiático" que transforma a dança, muitas vezes, num "show de mulheres sensuais". Sensualidade todas têm de sobra, mas há nesta escola um cuidado ético de apresentar as meninas como meninas e as mulheres como mulheres. Em nenhum momento atropela-se a infância ou a maturidade. Coreografias e figurinos são adequados para revelar a dança do ventre como uma arte de celebração feminina, exercendo-se a beleza e a profundidade de um conceito que, na sua essência, beira o sagrado.
A terceira e última parte trouxe a dança tribal, que carrega a ancestralidade de uma arte única, que não brota só do corpo, mas da alma. Uma espécie de ritual em que a coreógrafa e bailarina Rhamza Alli se entrega à sua determinação de viver pela dança. Ela é uma expert neste estilo. Precursora da dança tribal no Brasil, certamente pode ser considerada uma das melhores bailarinas do gênero no País. Com técnica exímia, ela faz movimentos de difícil execução com uma graça e conhecimento que superam o caráter de "espetáculo." Seu ventre, braços e pernas não apenas se movimentam, vibram, numa espécie de transe artístico que desloca a atenção da platéia para situações que parecem apontar para dimensões mais sutis da criatividade. Não é apenas o seu corpo que dança, sua alma dança. E o que se vê é um balé bastante intuitivo, embora firmemente amparado numa técnica apurada por gerações e gerações de dançarinas nômades. É como se todas estas mulheres desembarcassem na contemporaneidade para celebrar o eterno feminino.











