
Há um certo tempo, ando numa fase de recolhimento que algumas pessoas não compreendem. Na verdade, sempre fui uma pessoa introvertida e, por isso mesmo, já fui considerada, em muitas situações, antipática ou antissocial. Normalmente, não gosto de grandes festas, não gosto de boates, não gosto de música alta e não gosto de passar muito tempo longe de minha casa. Isso pode parecer uma imensa chatice, mas muitas pessoas são assim e creio que devam ser respeitadas em suas idiossincrasias. Quando visito as pessoas que gosto, o faço com o coração muito aberto e a distância não arrefece para mim, em um milímetro, o afeto que sinto pelos que me são caros. Isso não significa que eu seja uma ilha, mas que eu seja dada a manifestações de afeto diferentes daquelas que o mundo hoje nos exige, diferentes de uma sociabilidade forçada, convencionada, que obriga que gostemos todos das mesmas coisas, que pensemos todos da mesma forma.
Há um tempo atrás, recebi um e-mail de minha querida Turmalina
(http://cartadetarot.blogspot.com/), com um lindo texto da Martha Medeiros. Essas palavras foram escritas com uma incontível sensibilidade, e me tocaram deveras. Transcrevo-as como um presente para aqueles que costumam passar por aqui... Aliás, por eu nunca tê-los visto ou apertado suas mãos, isto não significa que não sejam, para mim, pessoas importantes.
Estava lendo o novo livro do Paulo Hecker Filho, Fidelidades, onde numa de suas prosas poéticas ele conta que, antigamente, deixava bilhetes, livros e quindins na portaria do prédio de Mário Quintana: "Para estar ao lado sem pesar com a presença".
Há outras histórias e poemas interessantes no livro, mas me detive nessa frase porque não pesar aos outros com nossa presença é um raro estalo de sensibilidade. Para a maioria das pessoas, isso que chamo de um raro estalo de sensibildade tem outro nome: frescura.
Afinal, todo mundo gosta de carinho, todo mundo quer ser visitado, ninguém pesa com sua presença num mundo já tão individualista e solitário. Ah, pesa. Até mesmo uma relação íntima exige certos cuidados. Eu bato na porta antes de entrar no quarto das minhas filhas e na de meu próprio quarto, se sei que está ocupado. Eu pergunto para minha mãe se ela está livre antes de prosseguir com uma conversa por telefone.
Eu não faço visitas inesperadas a ninguém, a não ser em caso de urgência, mas até minhas urgências tive a sorte de que fossem delicadas. Pessoas não ficam sentadas em seus sofás aguardando a chegada do Messias, que dirá a do vizinho. Pessoas estão jantando. Pessoas estão preocupadas. Pessoas estão com o seu blusão preferido, aquele meio sujo e rasgado, que elas só usam quando ninguém está vendo. Pessoas estão chorando. Pessoas estão assistindo a seu programa de tevê favorito. Pessoas estão se amando. Avise que está a caminho. Frescura, jura? Então tá, frescura, que seja.
Adoro e-mails justamente porque são sempre bem-vindos, e posso retribui-los, sabendo que nada interromperei do lado de lá. Sem falar que encurtam o caminho para a intimidade. Dizemos pelo computador coisas que, face a face, seriam mais trabalhosas. Por não ser ao vivo, perde o caráter afetivo? Nem se discute que o encontro é sagrado. Mas é possível estar ao lado de quem a gente gosta por outros meios. Quando leio um livro indicado por uma amiga, fico mais próxima dela.
Quando mando flores, vou junto com o cartão. Já visitei um pequeno lugarejo só para sentir o impacto que uma pessoa querida havia sentido, anos antes. Também é estar junto. Sendo assim, bilhetes, e-mails, livros e quindins na portaria não é distância: é só um outro tipo de abraço.
Martha Medeiros
Salaam
Layla