sexta-feira, dezembro 17, 2010

Da docilidade que nos adoece

Certa vez, estava eu na terapia me queixando do fato de que as pessoas "nunca me percebem", "nunca me levam em conta"... Meu terapeuta, honestíssimo, me devolveu: "como você quer que te percebam, se você não se mostra?". Foi aí que percebi que construí, ao longo de toda uma vida, essa espécie de "burqa psicológico", que me esconde até dos mais próximos. Sempre foi muito fácil para mim não dizer o que havia por dentro, para não pertubar o mundo ao redor. Sempre me considerando um estorvo, um móvel velho e dispensável, uma criatura desimportante que não deveria importunar os demais. Na primeira visita à homeopata, quis compreender para quê era aquele remédio que me receitava. "Para quem sofre calado".

Foi assim que compreendi porque meu estômago doía tanto. Ao engolir de tudo, e não vomitar nada, me transformei numa criatura dócil, que mal nenhum causava a ninguém. A ninguém, a não ser a mim. Ao me cansar do silêncio que me engessava a respiração, comecei, pouco a pouco, a falar. E percebi o quão estrondosa é a fala de quem sempre viveu mudo. Quanta inquietação causam as palavras de quem sempre abriu a boca para apenas dizer amém. A primeira reação das pessoas é que você está insano, passando dos limites. Que você "não tem paciência com as coisas". Tudo porque, depois de manter os lábios cerrados por tanto tempo, você decidiu aprender a falar.

Certa vez, escutei que é possível morrer de tanto se dizer sim. Quando você decide aprender a dizer não, resgata uma parte importante de sua dignidade. Você dá ao mundo externo algo imprescindível para a manutenção de sua saúde psíquica: limites.

Creio ter aprendido que a paz de espírito é algo que, às vezes, só vêm quando fazemos força e movemos uma pedra grande. Uma paz que só vem depois da inquietação causada por um "não" que queria sair de dentro da boca. Só vem quando você resolve falar, mesmo que o mundo só congratule os mudos, os afáveis, os dóceis.

E eu prefiro ser inteira a ser dócil.

Salaam
Layla

Imagem: Marcelo Pliger, sobre a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci. Para conhecer melhor seus trabalhos: http://pliger.net/eu/

5 Pitacos:

Blogger arKana falou...

olá!
sofremos um pouco do mesmo. Não dizia não e quando o dizia não sabia dizer.
Acho que já nem sabia o que estava cá dentro de tanto engolir e quando afirmava o - não - era a gritar, dizendo muitas coisas, à pessoa que estava mais à mão. Talvez por isso não tenho sofrido de dor de estomago, mas sim de crises de vesícula. Quando gritava era sobre o que estava mais à superfície, como uma cebola que se vai tirando as cascas, camada a camada.
a questão é que, como berrava, a pessoa do outro lado não estava disposta a ouvir e nem eu nem ela conseguiamos chegar a perceber porque berrava.
Hoje já consigo perceber, felizmente! Aprendi a dizer o que penso, quase sempre... e quanto mais digo, espontaneamente... menos berro. Foi gradual mas ainda estou a aprender :D
Obrigada pela partilha! Aprendi mais um bocadinho!
Beijos

12/17/2010 03:04:00 PM  
Blogger Iony falou...

Aprendi a duras penas que o mundo só sorri para os que se calam. E quer saber? Prefiro eu sorrir e sentir paz de espirito.Se o mundo não me quer...azar o dele! Isso aí mulher, cuspa o seus sapos mesmo, antes que vire um enorme brejo!

Beijos de quem sempre te admira!

12/17/2010 07:20:00 PM  
Blogger Elis teles falou...

Estou começando a tangenciar essa percepção no dia-a-dia. Não é uma decisão fácil, mas de fato é íntegra. Acho que é coisa de mulher de 30 anos, sabe? leva um tempo pra se permitir e pode ser bem solitário o processo, mas é corajoso isso. Ontem o ney matogrosso falou uma coisa assim na tv: eu comecei a me dar conta de que antes dos outros e de qualquer coisa que eles venham a pensar sobre mim, tem a minha existência, e eu tenho que existir.

12/18/2010 04:50:00 PM  
Blogger Sarah Milani falou...

Me identifiquei muito com seu texto. Acredito até que a minha gastrite nervosa seja fruto desta indesejável docilidade.

12/22/2010 06:12:00 PM  
Blogger AnaCris (Nika) falou...

Mulher! total identificação com seu texto! é isso mesmo! e eu fico sempre com a sensação agora, que cada passo que dou, o mundo sai do lugar...rs. mas é isso mesmo. e também o espanto das pessoas acostumadas não só com o meu silencio, mas com o silencio de todos os outros iguais a mim. Incomodar os outros, sempre me 'incomodou' rsrsrsrs.
adorei, estou te seguindo e vou compartilahr este texto, ok?
beijo grande!

1/15/2011 06:00:00 PM  

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