Sobre a formatura da filha

Dois anos depois, passei a freqüentar a escola, propriamente dita. Também me lembro do primeiro dia de aula. Na verdade, lembro-me mais ainda dos momentos que o antecederam. Eu iria estudar à tarde e, pouco antes do horário de almoço, fui tomar um banho para me preparar para a estréia entre as crianças grandes. Lembro-me exatamente do banheiro, da cena que eu via na antiga casa, da angústia a me devorar o estômago, do medo do desconhecido, da professora concebida apenas em fantasias. Depois do banho, minha mãe me vestiu com uma camiseta amarelinha, de mangas longas, e me levou para a aula. O resto, não lembro mais.
Vinte e dois anos se passaram desde o primeiro dia de aula, e me vi naquele ginásio cheio, colando grau pela segunda vez na vida. Enquanto me lembrava dessas cenas distantes, ouvi meu nome ser chamado pelo reitor, numa mesa lá adiante, muito longe de mim, me convocando a comparecer à frente para buscar um diploma de honra ao mérito que eu havia ganhado como melhor aluna do meu curso. Nessa hora despertei de minha bolha particular, onde a pequena criança iniciava sua vida. Peguei o certificado e, de volta a meu lugar entre os formandos, procurei minha mãe na arquibancada, e percebi que chorava. Levantei-me da cadeira, aproveitando a balbúrdia causada pela miríade de estudantes presentes, estiquei com os braços aquele papel em mãos e gritei à minha mãe: “é para você”.
Isto não era nenhuma mentira. Obviamente, o meu diploma, conseguido com o suor de cinco penosos anos de uma faculdade integral, entremeados ainda com meu trabalho como bailarina, é algo por que lutei pensando em mim, e naquilo que eu poderia fazer aos outros como psicóloga. Mas aquela média de 9,468 durante a faculdade, aquilo não é meu, aquilo é de dona Terezinha, aquela pequena mulher na arquibancada, com seus louros cabelos e seus olhos claros como um favo de mel.
Dona Tê, como assim a conhecem, é a mulher mais forte que conheci em toda a vida. Lembro-me de raras ocasiões em que a vi chorar, e eram cenas tão escassas, que a cada vez me impressionavam muito, pois eu sabia que não tão cedo eu voltaria a ver aquela mulher demonstrar um milímetro de fraqueza. Eu já sou bem diferente. A cada desmantelo, a cada rasgo, sem nenhuma vergonha, aceitei o trabalho paciente da mãe-costureira, a me remendar por dentro. Não por poucas vezes, a vi gritar enérgica comigo: “você é uma mulher ou é o quê?”.
Se há algo de bom dentro de mim, muito desse algo foi construído pelas mãos pacientes de Dona Tê, a me ensinar a ser um ser humano. A mulher que nunca vi ruir, que nunca vi se desesperar. Muitas vezes, quando me via beirando o precipício, eu a escutava dizer: “não se preocupe, que vamos segurar as pontas”.
Certa vez, na primeira faculdade que cursei, História, fui agredida verbalmente, de forma grotesca, por um imbecil que comigo estudava, por tentar defender um gato que o infeliz visava maltratar. Voltei para casa muito abalada e, bem nesse dia, ligou-me a mãe-costureira para saber como eu estava. Contei o ocorrido quase chorando, e jamais me esqueço do que ela disse, do alto de sua força e de sua fleuma: “a minha dor... é não poder colocar você de novo dentro da minha barriga”.
5 Pitacos:
Estou aqui derramando lágrimas de emoção...fico imensamente feliz em ver-te assim realizada!!!
Vc conseguiu....
Sei que não foi fácil, mas deu certo!!! E assim crescemos, amadurecemos e entendemos melhor as atitudes das pessoas que nos amam :o)
Bjoooooooo
Layla;
Parabéns por mais essa Vitória em sua Vida, Amiga na Mente, nas Palavras e no Coração.
Beijos mil!!!
PS:Você conclui o seu ciclo acadêmico, eu começo o meu. Entre minhas inspirações minha mãe e Você.
Au Layla, vc me emociona tanto!!!!! Eu lembro q qdo te conheci vc fazia cursinho para tentar passar no vest da UEL. O tempo passou, lagrimas derramamos, vc se formou, em breve tb me formo. E estamos em pá e de cabeça erguida!! Parabens minha cara amiga!
Olá!
Palavras lindas as suas para descrever sua mãe.
E parabéns pela formatura!
As fotos da sua apresentação de dança são belíssimas...
Estava com saudade de abrir esse blog e chorar... Parabéns pela formatura. Mais uma ponte foi atravessada. E do alto da certeza (se é que isso existe!!!) de quem se formou 15 anos atras te digo:- A cada ponte que ajudar algum ser humano (paciente ou cliente, não sei como prefere denominar - eu após tanto tempo acho que nenhuma palavra traz o conceito adequado)atravessar vai agradecer à Dona Tê e a cada membro da família que a vida te pôs. Bjs
Mone
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