domingo, fevereiro 05, 2006

Conversa de consultório

Diz o doutor à sua paciente: “Você tem um mês de vida.”

“Um mês, doutor? O senhor tem certeza? Não haveria alguma possibilidade de haver nem um diazinho a mais?”.

“Um mês, minha senhora”.

A paciente fumava infinitos cigarros. Na verdade, não se sentia culpada. “Quem é que, escutando que terá um mês de vida, iria se conter, iria resistir a fumar alguns cigarros?” – desculpa-se.

A mulher torna-se meditativa. O que fazer com esse mês que lhe resta? Que diabos poderia fazer com trinta míseros dias, essa porcaria de tempo que não dá para nada – não dá para plantar uma árvore e vê-la crescer, não dá para aprender a tocar piano, não dá para educar um filho... Mas que pouco tempo, que injustiça da vida! – revolta-se. “Tanta gente aí que vai viver um monte, e eu vou morrer em trinta dias!!! Eu morro, enquanto os outros vivem, e plantam árvores, e aprendem a tocar piano, e educam os filhos... Mas que desgraça!”

“Por que eu, porra?” – pergunta-se.

Nesse instante, eis que Deus lhe dá um chacoalhão. Chega ao seu ouvido e sussura: “Poderia ser dois, três, cinco dias, e estou te dando trinta. Faça o favor de vivê-los da melhor forma possível, ou vai se ver comigo quando chegar no céu. E se eu te ver infeliz em algum desses trinta dias, vou achar você uma mal-agradecida, e vou encurtá-los para vinte”.

A mulher estremece. Trinta é melhor que vinte.

Nesse instante, começa a perceber que o melhor a ser feito é passar grandes trinta dias. Ela nunca tinha andado de montanha russa, e decidiu que era chegada a hora. Tinha medo do mar desde criança, e resolveu que, nesses trinta dias, iria à praia e molhar-se-ia até a cintura (para não correr o risco de encurtar o tempo). Comeria sorvete de leite condensado com frutas vermelhas todos os dias. Com os dedos. Lambuzando-se. Iria ao show do U2 e dos Rolling Stones. E gostaria das pessoas intensamente, e viveria a presença das pessoas queridas intensamente. E olharia nos olhos delas, e lhes diria o quanto são estimadas. E colocaria um jazz para tocar, para servir de fundo musical para declamar um poema em francês. E chegaria ao ouvido de alguém especial e sussurraria aquela música que Amélie Poulain cantava no filme: “Si tu n'étais pas la, comment pourrais-je vivre?”. Gastaria todos os seus vidros de perfume, perfumando-se para ficar em casa, lavando louça, cozinhando. Usaria as roupas que guardava para as festas. Perderia o medo de dizer que gosta de alguém. “Que se dane, vou morrer mesmo”, pensava.

“E então, minha senhora? O que fará diante dessa situação?”

“Eu vou enfiar o pé na jaca, doutor”.

“Enfiar o pé na jaca?!?!”

“É, doutor. Enfiar o pé na jaca, o senhor não sabe o que é isso? Ora, doutor, francamente... Eu não sei quanto ao senhor... Mas eu não tenho medo de morrer, não. Medo, medo, não. Não é o fato de saber que vou morrer que vai me acabar com a vida antes do tempo, ora bolas”.

O doutor fica perplexo com a honestidade (insanidade, talvez?) da senhora.

E quer saber, doutor, volte amanhã que vai ter até vinho na geladeira. Convido o senhor. Beberiquemos um vinho, ouvindo um bom jazz.

A paciente pensa em bebericar o vinho até a última gota. E a bebericar a vida até a última gota.

“Aceita um gole, doutor?”

“Salut”, responde o médico. E seja lá o que Deus quiser.


Salaam
Layla

2 Pitacos:

Anonymous Débora falou...

Naum sei exatamente o que te dizer apenas q a oração que encontrei em seu blog É TUDO!
To passando por uma fase mto complicada...
entra no meu blog se tiver a oportunidade....

2/05/2006 07:43:00 PM  
Blogger Lu falou...

Esse Correndo com os Lobos é um grande achado. Tem uma riqueza de poesia, sensibilidade, força e muitos outros adjetivos. Não deixa de ser um pouco de vc, não é mesmo. Salut! Eu tb quero viver a vida em goles grandes! Bjs.

2/07/2006 04:24:00 PM  

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