terça-feira, janeiro 24, 2006

Da sensação de pertencer

Trago em meus olhos as marcas da identidade, do pertencer a algo, do sentir-se parte. Nos olhos negros de tanto olhar a noite, nos cabelos negros de céu sem lua, nos quadris largos e soltos, feitos para dançar e para parir. Nas sobrancelhas irregulares, na passionalidade exacerbada. Não nasci no Oriente Médio. Mas tenho aqueles olhos que denunciam minha origem.

Parece que quanto mais tempo passo longe desse universo, definho como uma planta sem água. Quanto mais tempo longe dessa língua, entristecem-se meus ouvidos, com saudades das belas palavras, quase num cantar. Quanto mais tempo longe do som que as mulheres fazem com a língua convidando à dançar, menos doces são os dias, e é como se a vida fosse desinteressante e desapaixonada.

Houvesse companhia, hoje eu dançaria um dabke como nunca dancei. Hoje eu colocaria uma flor nos cabelos, amarraria um lenço à cintura e arriscaria os pulos que gosto de fazer. Hoje eu desejei segurar as mãos de outras pessoas como irmãos, e entrar na roda onde todos batem os pés no mesmo ritmo, celebrando a união e fazendo o mundo ter continuidade, e a vida ter sentido. A roda que levanta a poeira da terra e faz os antepassados que já se foram sorrirem, felizes. A roda que torna todos iguais: mãos unidas, vozes unidas, sangue guerreiro falando alto. Orgulho dos homens, orgulho das mulheres: a sensação de pertencer.

Sou uma mulher do deserto. Uma mulher a quem bastam as noites plenas do cintilar das estrelas, a bailar ao redor do crescente da lua, e um chão firme onde se possa fazer a roda. Uma mulher de olhos grandes e negros, de coração indomável e de quadris feitos para dançar e para parir.

El wardi sahbi...
Qalli 'ala haga
N'harda wa fil-layl...
El wardi sahbi...
El wardi sahbi,
Qalli 'ala haga.
N’harda wa fil-layl
N’harda wa fil-layl...

(Natacha Atlas)

Salaam
Layla.

1 Pitacos:

Blogger Turmalina falou...

Oi lindinha...lendo este seu maravilhoso post me transportei para um mundo que me acolhe: o barulho do mar batendo nas pedras, os coqueiros dançando ao vento que vem do mar e aquela vastidão azul...
O meu deserto é um pouco diferente, um tanto mais úmido...rs...
Beijos

1/27/2006 11:02:00 AM  

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